Definir
com precisão a origem do Choro é tarefa que, no mínimo,
desperta muita polêmica. A quantidade de material e pesquisas
publicados na mídia eletrônica é tão grande
quanto a riqueza deste gênero musical que, segundo a maioria dos
historiadores, começou a existir a partir do final do século
19, no Rio de Janeiro, com a forma de tocar de músicos como Chiquinha
Gonzaga, Joaquim Antonio da Silva Callado, Catulo da Paixão Cearense,
Ernesto Nazaré, seguidos, por Pixinguinha, Zequina de Abreu,
Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho, só para
citar alguns dos nomes que fizeram o Chorinho, como é popularmente
chamada, atravessar fronteiras.
Os
pesquisadores de música popular brasileira acreditam que o ritmo
soltou seus primeiros acordes lá pela metade do século
19 e era um gênero criado a partir da mistura de elementos das
danças de salão européias (como a valsa, o minueto
e a polca) e da música popular portuguesa, com influências
da música africana. Já o folclorista Luis Câmara
Cascudo acreditava que o choro vinha de "xolo", um baile que
os escravos faziam nas fazendas e que teria a palavra gradativamente
mudado para "xoro" e, finalmente, "choro". Mas o
crítico José Ramos Tinhorão, por sua vez, diz que
o choro originava da impressão de melancolia gerada pelas baixarias
do violão e que a palavra "chorão" seria uma
decorrência.
Discussões
a parte, nessa época, o Choro era considerado uma forma de tocar
e não um gênero musical como hoje é reconhecido.
A partir de 1880, com o aumento do número dos conjuntos de choro,
hoje, conhecidos por regionais, os grupos passaram também
a acompanhar cantores em modinhas da época, popularizando o gênero.
O mais conhecido dos primeiros líderes de conjuntos de choro
é o flautista carioca Joaquim Antonio da Silva Callado, autor
de Flor Amorosa, o marco desse estilo musical e composição
obrigatória no repertório de todo flautista chorão.
Callado, aliás, foi protetor e mentor de Chiquinha Gonzaga, a
primeira mulher a destacar-se com música no Brasil.
Ritmo
do povo
Como
escreveu o historiador Danuzio Lima, os primeiros criadores do Choro
eram trabalhadores da alfândega do porto carioca ou da linha férrea,
que à noite faziam música para farrear. Coisa mesmo
de boêmio. Não era preciso ser convidado para entrar
na roda. Saber tocar algum instrumento era o cartão de visitas.
Também não havia regras nem partituras. Mesmo com a variedade
de instrumentos, a flauta (responsável pela condução
da melodia principal), o cavaquinho e o violão (harmonizador)
sempre foram a base do Choro. O conjunto regional é geralmente
formado por um ou mais instrumentos de solo, como flauta, bandolim e
cavaquinho, que executam a melodia, o cavaquinho faz o centro do ritmo
e um ou mais violões e o violão de sete cordas formam
a base do conjunto, além do pandeiro, como marcador de ritmo
A
influência do jazz
Na
década de 20 do século passado, impulsionado pelas gravadoras
de discos e pelo advento do rádio, o Choro fez sucesso nacional
com o surgimento de músicos como Luperce Miranda e os conjuntos
de choro eram muito requisitados para gravações fonográficas.
Nesse período, o Choro começa a sofrer influência
da música comercial norte-americana, fazendo com que antigos
instrumentistas de choro parassem de tocar. Outros músicos profissionalizaram-se,
aderindo às "jazz-bands". Nessa época, Alfredo
da Rocha Vianna Filho, o conhecido Pixinguinha, passa a tornar-se conhecido
por suas composições e seu estilo de tocar flauta transversal.
A
partir da Segunda Guerra, o Choro transformou-se em mais um dentre os
gêneros criados com o aparecimento da música de consumo
ligada aos interesses das grandes gravadoras internacionais. Segundo
Danuzio Lima, muitas pessoas dizem que o choro é o jazz
brasileiro, mas apesar de ambos terem em comum a improvisação,
o choro surgiu antes do jazz, mais precisamente, meio século
mais tarde, portanto este último deveria chamar-se choro
estadunidense, como sugere Danuzio.
Até
mesmo a improvisação, característica sempre atribuída
ao jazz, também já existia no Brasil desde os tempos do
Império e é um dos fatores principais do Choro. Essa música
de improviso é hoje um dos estilos mais importantes da música
brasileira, e criou nomes como Valdir Azevedo (Brasileirinho), Pixinguinha
(Carinhoso), e Jacob do Bandolim (Receita de Samba), além de
composições imortais, como Tico-Tico no Fubá
de Zequinha de Abreu, Brasileirinho, de Waldir Azevedo,
Noites Cariocas de Jacob do Bandolim e Carinhoso
de Pixinguinha.
Esta
última obra, aliás, recebeu música de João
de Barro, suscitando a polêmica entre os mais conservadores, que
defendem apenas as composições instrumentais no gênero.
O fato é que a canção se transformou numa obra-prima
da música brasileira, imortalizada na voz de Orlando Silva.No
entanto, nas décadas de 50 e 60, o gênero perdeu grande
parte de sua popularidade devido ao surgimento da Bossa Nova, quando
foi considerado fora de moda. Mas o estilo manteve-se presente
através de vários músicos, como Paulinho da Viola
e Arthur Moreira Lima.
Cenário
atual
O
Choro entra em seu terceiro século de existência, com uma
bagagem de mais de 130 anos, completamente firmado como um dos principais
gêneros musicais do Brasil. São milhares de discos gravados
e centenas de chorões que marcaram presença. O choro além
de ser um gênero musical rico e complexo, é também
um fenômeno artístico, histórico e social. No entanto
falta divulgação, pois enquanto o Dia Nacional do Choro,
(festejado dia 23 de abril, data de nascimento de Pixinguinha) é
comemorado em países como França, e Japão, ávidos
consumidores de nossa música, no Brasil, o cenário é
oposto. Poucos sabem da existência do Dia Nacional do Choro. Por
isso é fundamental o trabalho de grupos contemporâneos
como o Agemaduomi, Galo Preto, Rabo de Lagartixa e Choro na Feira, que
levam as novas gerações, toda a preciosidade do esdtilo.
Graças
a esse trabalho, em algumas das principais cidades do Brasil, incluindo
Campo Grande, o choro é hoje uma febre, que reúne
gente de todas as gerações. Prova disso é a Confraria
do Choro, idealizada por Adriana Praça, integrante do Agemaduomi
e que funciona todos os domingos, na capital sul-mato-grossense, reunindo
amantes da boa música. Esse tipo de iniciativa vem ajudando o
gênero a trocar o rótulo de música para pessoas
sofisticadas para o da mais sofisticada forma de música
instrumental popular.
Flavia
Lima
Jornalista
|
voltar |