AGEMADUOMI REGIONAL DE CHORO


Foto: Alexis Prappas

Definir com precisão a origem do Choro é tarefa que, no mínimo, desperta muita polêmica. A quantidade de material e pesquisas publicados na mídia eletrônica é tão grande quanto a riqueza deste gênero musical que, segundo a maioria dos historiadores, começou a existir a partir do final do século 19, no Rio de Janeiro, com a forma de tocar de músicos como Chiquinha Gonzaga, Joaquim Antonio da Silva Callado, Catulo da Paixão Cearense, Ernesto Nazaré, seguidos, por Pixinguinha, Zequina de Abreu, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho, só para citar alguns dos nomes que fizeram o Chorinho, como é popularmente chamada, atravessar fronteiras.

Os pesquisadores de música popular brasileira acreditam que o ritmo soltou seus primeiros acordes lá pela metade do século 19 e era um gênero criado a partir da mistura de elementos das danças de salão européias (como a valsa, o minueto e a polca) e da música popular portuguesa, com influências da música africana. Já o folclorista Luis Câmara Cascudo acreditava que o choro vinha de "xolo", um baile que os escravos faziam nas fazendas e que teria a palavra gradativamente mudado para "xoro" e, finalmente, "choro". Mas o crítico José Ramos Tinhorão, por sua vez, diz que o choro originava da impressão de melancolia gerada pelas baixarias do violão e que a palavra "chorão" seria uma decorrência.

Discussões a parte, nessa época, o Choro era considerado uma forma de tocar e não um gênero musical como hoje é reconhecido. A partir de 1880, com o aumento do número dos conjuntos de choro, hoje, conhecidos por “regionais”, os grupos passaram também a acompanhar cantores em modinhas da época, popularizando o gênero. O mais conhecido dos primeiros líderes de conjuntos de choro é o flautista carioca Joaquim Antonio da Silva Callado, autor de “Flor Amorosa”, o marco desse estilo musical e composição obrigatória no repertório de todo flautista “chorão”. Callado, aliás, foi protetor e mentor de Chiquinha Gonzaga, a primeira mulher a destacar-se com música no Brasil.

Ritmo do povo

Como escreveu o historiador Danuzio Lima, os primeiros criadores do Choro eram trabalhadores da alfândega do porto carioca ou da linha férrea, que à noite faziam música para farrear. “Coisa mesmo de boêmio”. Não era preciso ser convidado para entrar na roda. Saber tocar algum instrumento era o cartão de visitas. Também não havia regras nem partituras. Mesmo com a variedade de instrumentos, a flauta (responsável pela condução da melodia principal), o cavaquinho e o violão (harmonizador) sempre foram a base do Choro. O conjunto regional é geralmente formado por um ou mais instrumentos de solo, como flauta, bandolim e cavaquinho, que executam a melodia, o cavaquinho faz o centro do ritmo e um ou mais violões e o violão de sete cordas formam a base do conjunto, além do pandeiro, como marcador de ritmo

A influência do jazz

Na década de 20 do século passado, impulsionado pelas gravadoras de discos e pelo advento do rádio, o Choro fez sucesso nacional com o surgimento de músicos como Luperce Miranda e os conjuntos de choro eram muito requisitados para gravações fonográficas. Nesse período, o Choro começa a sofrer influência da música comercial norte-americana, fazendo com que antigos instrumentistas de choro parassem de tocar. Outros músicos profissionalizaram-se, aderindo às "jazz-bands". Nessa época, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o conhecido Pixinguinha, passa a tornar-se conhecido por suas composições e seu estilo de tocar flauta transversal.

A partir da Segunda Guerra, o Choro transformou-se em mais um dentre os gêneros criados com o aparecimento da música de consumo ligada aos interesses das grandes gravadoras internacionais. Segundo Danuzio Lima, muitas pessoas dizem que o choro é o “jazz brasileiro”, mas apesar de ambos terem em comum a improvisação, o choro surgiu antes do jazz, mais precisamente, meio século mais tarde, portanto este último deveria chamar-se “choro estadunidense”, como sugere Danuzio.

Até mesmo a improvisação, característica sempre atribuída ao jazz, também já existia no Brasil desde os tempos do Império e é um dos fatores principais do Choro. Essa música de improviso é hoje um dos estilos mais importantes da música brasileira, e criou nomes como Valdir Azevedo (Brasileirinho), Pixinguinha (Carinhoso), e Jacob do Bandolim (Receita de Samba), além de composições imortais, como “Tico-Tico no Fubá” de Zequinha de Abreu, “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo, “Noites Cariocas” de Jacob do Bandolim e “Carinhoso” de Pixinguinha.

Esta última obra, aliás, recebeu música de João de Barro, suscitando a polêmica entre os mais conservadores, que defendem apenas as composições instrumentais no gênero. O fato é que a canção se transformou numa obra-prima da música brasileira, imortalizada na voz de Orlando Silva.No entanto, nas décadas de 50 e 60, o gênero perdeu grande parte de sua popularidade devido ao surgimento da Bossa Nova, quando foi considerado “fora de moda”. Mas o estilo manteve-se presente através de vários músicos, como Paulinho da Viola e Arthur Moreira Lima.

Cenário atual

O Choro entra em seu terceiro século de existência, com uma bagagem de mais de 130 anos, completamente firmado como um dos principais gêneros musicais do Brasil. São milhares de discos gravados e centenas de chorões que marcaram presença. O choro além de ser um gênero musical rico e complexo, é também um fenômeno artístico, histórico e social. No entanto falta divulgação, pois enquanto o Dia Nacional do Choro, (festejado dia 23 de abril, data de nascimento de Pixinguinha) é comemorado em países como França, e Japão, ávidos consumidores de nossa música, no Brasil, o cenário é oposto. Poucos sabem da existência do Dia Nacional do Choro. Por isso é fundamental o trabalho de grupos contemporâneos como o Agemaduomi, Galo Preto, Rabo de Lagartixa e Choro na Feira, que levam as novas gerações, toda a preciosidade do esdtilo.

Graças a esse trabalho, em algumas das principais cidades do Brasil, incluindo Campo Grande, o choro é hoje uma “febre”, que reúne gente de todas as gerações. Prova disso é a Confraria do Choro, idealizada por Adriana Praça, integrante do Agemaduomi e que funciona todos os domingos, na capital sul-mato-grossense, reunindo amantes da boa música. Esse tipo de iniciativa vem ajudando o gênero a trocar o rótulo de “música para pessoas sofisticadas” para o da “mais sofisticada forma de música instrumental popular”.

Flavia Lima
Jornalista

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